Parteum lança clipe de “10, Talvez 9” e transforma tradição de Ano Novo em capítulo final de um ciclo
Desde 2014, o rapper paulistano Parteum mantém uma tradição pouco comum na música brasileira: lançar uma faixa inédita sempre no primeiro dia do ano.
Arte visual da faixa "10, talvez 9"
A faixa que já circula entre ouvintes atentos da cena, agora ganha corpo visual, ampliando o caráter autobiográfico e reflexivo que marca essa etapa da obra do artista. O clipe chega sem alarde, mas carrega densidade: é menos sobre impacto imediato e mais sobre permanência.
Segundo o próprio Parteum, em entrevista ao portal Ismo.mov, a prática de lançar músicas no dia 1º de janeiro nasceu de um intervalo específico do ano: o período entre o Natal e o Ano Novo, quando a cidade desacelera e o tempo parece permitir mais introspecção. Esse espaço virou laboratório criativo, primeiro instrumental, depois cada vez mais conectado a reflexões pessoais e de percurso.
Nos últimos três anos, as faixas lançadas nessa data passaram a dialogar diretamente entre si. Raciocínio Inteiro, Intervalo e agora 10, Talvez 9 funcionam como capítulos de um mesmo pensamento, com unidade estética, narrativa e sonora. Não por acaso, o cuidado com a mixagem e a continuidade do som aparecem como elementos centrais, um “fio condutor”, como define o artista.
A letra de “10, Talvez 9" explicita esse momento de balanço. Parteum escreve sobre o tempo, o corpo, a idade, as perdas e a filtragem natural das relações ao longo da vida. O verso que dá nome à música: “eu tive 100 amigos, sobraram 10, talvez nove”, resume uma visão madura, sem vitimismo e sem pose nostálgica.
Musicalmente, o rapper se afasta da estrutura mais direta do rap tradicional e aposta em acordes menos óbvios, dialogando com referências de artistas que expandiram os limites do gênero, como A Tribe Called Quest e De La Soul. É um rap que pensa forma e conteúdo como um mesmo gesto.
Outro ponto relevante do projeto é o caráter documental. Parteum revela que, paralelamente aos lançamentos, vem captando imagens para um documentário homônimo, o que reforça a ideia de que Raciocínio Inteiro não é apenas um disco, mas um registro de processo, tempo e sobrevivência criativa.
Aos 50 anos, o artista também reflete sobre pertencimento e continuidade. Se em determinado momento se sentiu mais acolhido pela cultura do skate do que pela música, hoje reconhece em uma geração mais nova do rap um suporte fundamental para seguir criando. Não como competição, mas como troca.
O clipe de “10, Talvez 9” não busca traduzir a música de forma literal. Ele funciona como extensão do clima da faixa: introspectivo, fragmentado, consciente de suas marcas e cicatrizes. É mais um arquivo desse percurso do que um produto isolado.

Carlos Eduardo Gomes
Atuação focada em rádio, televisão e comunicação cultural. É repórter, produtor e empreendedor de mídia independente.











