Negro Rudhy lança novo álbum e transforma memória, território e vivência em narrativa musical
“No Mesmo Gueto que Você me Esqueceu” chega às plataformas com nove faixas produzidas por Beli Remour e Makalister
Negro Rudhy lança “No Mesmo Gueto que Você me Esqueceu”, seu terceiro álbum solo, produzido por Beli Remour e Makalister - Foto: Diogo Machado
O rapper Negro Rudhy, um dos nomes mais longevos e consistentes do rap de Florianópolis, lançou nesta terça-feira (20 de janeiro) o álbum “no mesmo gueto que você me esqueceu”, seu terceiro trabalho solo, produzido por Beli Remour e Makalister, em lançamento conjunto pelos selos Polvo Roxo e Almanak.
O disco sucede o single “Cânticos de Guerra”, divulgado no dia 13 de janeiro, que já havia antecipado a estética sonora e temática do projeto. Agora apresentado de forma integral, o álbum aprofunda uma narrativa marcada por memória, espiritualidade, crítica social, vivência periférica e autorreflexão, elementos recorrentes na trajetória do artista desde os tempos do grupo Arma-zen.
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Mais do que uma sequência de faixas, o trabalho se constrói como um relato contínuo, em que experiências pessoais, observações do cotidiano urbano e referências à história do rap se entrelaçam.

Faixa a faixa
01. Beba Um Gole Desse Rap
A faixa de abertura funciona como um manifesto. Rudhy apresenta o disco como algo a ser compartilhado “com os de fé”, enquanto reafirma o rap como ferramenta de cura, denúncia e resistência. A caneta aparece como extensão da vivência, e o discurso rejeita a superficialidade do mercado fonográfico, colocando o álbum desde o início em oposição à lógica descartável da indústria. “Um bom rap no boom bap”.
02. Rebeldes (feat. Carmnatti)
Aqui, o tom é de confronto. A música discute rebeldia não como estética, mas como postura mental diante de um sistema que transforma tudo em produto. Entre críticas às redes sociais, ao culto da imagem e à fragilidade das relações, a faixa resgata a ideia do “clássico” como algo que resiste ao tempo.
03. Desabafo
Uma das faixas mais introspectivas do disco. Rudhy caminha por ruas vazias, repete ciclos e observa sonhos interrompidos. O rap surge como força para seguir em frente, mesmo diante do desgaste emocional. O título se confirma na forma direta e pouco ornamental com que os versos são apresentados.
04. Cânticos de Guerra (feat. Makalister)
Já conhecida do público, a faixa ganha novo peso dentro do álbum. A música articula espiritualidade, rotina urbana e sobrevivência, com imagens que transitam entre o transporte público, o trabalho informal e a constante sensação de vigilância. É um retrato denso da vida periférica, sem romantização.
A música trabalha o contraste entre celebração e melancolia. A ideia de fim atravessa os versos, seja no ciclo das festas, seja nas relações e nos próprios sonhos. O clima é de ressaca emocional, onde prazer, culpa e reflexão coexistem.
06. Paraíso dos Gangsta (feat. DJ Monkey)
Aqui, Rudhy aborda de forma crítica a relação entre dinheiro, poder e sobrevivência. O “paraíso” apresentado é ambíguo: ao mesmo tempo em que seduz, cobra um preço alto. A faixa expõe as contradições de um sistema que promete ascensão, mas frequentemente entrega violência e exclusão.
Uma das músicas mais territoriais do disco. Rudhy estabelece paralelos entre o bairro Monte Cristo e o Bronx nova-iorquino, conectando experiências locais a uma história global do hip hop. A faixa trata o bairro como espaço de dor, fé, resistência e identidade coletiva.
08. Romances da Oeste (feat. ANACAROL)
O álbum desacelera para falar de afeto, memória e silêncio. A presença de ANACAROL adiciona outra textura à narrativa, ampliando o campo emocional do disco. A música funciona como um respiro antes do encerramento, sem abandonar o peso temático.
09. No Mesmo Gueto Que Você Me Esqueceu
A faixa-título encerra o álbum retomando infância, perdas familiares, espiritualidade e amadurecimento. O tom é confessional. Rudhy revisita a própria trajetória, reconhece cicatrizes e reafirma a permanência no território simbólico e real que moldou sua identidade. O disco se fecha como começou: olhando para dentro, sem concessões.
Continuidade de uma trajetória
Com mais de duas décadas de atuação no rap catarinense, Negro Rudhy construiu uma carreira marcada pela independência e pelo vínculo com a cena local. Seu primeiro álbum solo, “Favela Convoca” (2016), tornou-se referência no estado. Desde então, o artista lançou projetos como “Katana” e o EP “Ladra de Coração”, sempre mantendo diálogo direto com o cotidiano das periferias de Florianópolis.
Ouça também - Arquivo do Barraco: https://www.mixcloud.com/barracorap/negrorudhy/
Em publicação feita nas redes sociais no dia do lançamento, Rudhy definiu o novo álbum como um trabalho profundamente pessoal, ligado à infância, à família e às memórias do território onde cresceu.

Carlos Eduardo Gomes
Atuação focada em rádio, televisão e comunicação cultural. É repórter, produtor e empreendedor de mídia independente.















