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Beal transforma arquivos esquecidos em manifesto pessoal na mixtape Músicas em .mp3

Mixtape nasce de faixas guardadas, atravessa anos e transforma limitação técnica em linguagem artística

Atualizado em 05/01/2026 às 16:01, por Carlos Eduardo Gomes.

Aparelho tocador de MP3 de cor vermelha popular nos anos 2000. Capa da mixtape Músicas em .mp3

Rapper, cantor, DJ de vinil, produtor cultural e cineasta. Beal é um desses artistas que não cabem em uma única definição. Atuante na cena de Florianópolis (SC), o MC acaba de lançar a mixtape Músicas em MP3, um trabalho inédito, independente e profundamente pessoal, que transforma faixas guardadas no HD em um registro honesto de trajetória, sentimentos e memória afetiva.

Em entrevista, Beal fala sobre identidade, processo criativo, a relação com a cidade e os desafios de manter o rap vivo fora dos grandes centros e das estruturas tradicionais da indústria.

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Quem é o Beal dentro e fora do rap

Dentro da cultura hip hop, Beal se define antes de tudo como um amante da cultura. MC, rapper e cantor independente, atua também como backing vocal, DJ em apresentações exclusivamente com vinil e produtor da Excuse Records, selo que trabalha com vestuário, eventos e produções audiovisuais.

Fora do rap, a música continua presente, mas dividindo espaço com o cinema. Beal é formado em audiovisual e mantém uma carreira paralela como cineasta, o que ajuda a explicar o cuidado estético e narrativo presente em seus trabalhos musicais.

O nascimento de Músicas em MP3

Lançada sem grande pré-divulgação e sem investimento financeiro robusto, a mixtape vem sendo recebida de forma positiva pelo público. Para Beal, o projeto ainda está em fase de digestão: é um trabalho que pede tempo para alcançar mais ouvintes e gerar retornos mais amplos.

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O título Músicas em MP3 não é apenas estético. Ele nasce da própria limitação técnica do projeto. Muitas faixas foram gravadas sobre instrumentais cujo único arquivo disponível era, literalmente, um MP3, seja por questões de direitos autorais, samples ou pela perda dos arquivos originais.

Além disso, o nome carrega uma forte carga nostálgica, remetendo ao final dos anos 2000 e início dos anos 2010, quando o consumo musical passava por players MP3, downloads via fóruns, programas P2P e plataformas emergentes como o YouTube. A mixtape dialoga diretamente com esse período e com a forma como uma geração se relacionou com a música.

Um retrato de 2019 a 2023

As primeiras faixas começaram a ser escritas ainda em 2019, antes da pandemia, e o projeto se estende até 2023. Trata-se, portanto, de um recorte temporal importante na vida do artista, atravessando diferentes fases emocionais, contextos sociais e transformações pessoais.

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As letras são majoritariamente autobiográficas e funcionam como um diário musical. Beal não tenta controlar a interpretação do ouvinte: sua preocupação central é se expressar de forma clara e honesta, deixando que cada pessoa encontre seu próprio significado nas músicas.

Processo criativo guiado pelo sentimento

Em Músicas em MP3, o processo criativo parte sempre das instrumentais. Para Beal, os primeiros 30 segundos de um beat são decisivos. Se a música não desperta um sentimento imediato, seja raiva, alegria, reflexão ou inquietação, ela é descartada.

Aqueles primeiros 30 segundos ali, se já tocou, já sente que é esse aí. Senão, já parte pro próximo. Eu escuto ali e reflito qual é o sentimento que aquele instrumental me passa. Se eu consigo visualizar a música ali em cima dela, senão já passo pro próximo.

Beal

Esse critério emocional orienta toda a construção das faixas. A partir do sentimento, o artista já consegue visualizar a música pronta, a temática e a energia que ela deve carregar.

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Entre as faixas, ele destaca a introdução e a terceira música como algumas de suas favoritas, ainda que reconheça a dificuldade de escolher uma única canção que represente toda a mixtape.

Floripa como cenário e contraste

A cidade de Florianópolis atravessa a obra de Beal de forma inevitável. Sua visão de mundo é moldada pelo território que habita, pelas pessoas ao redor e pelas vivências cotidianas da ilha. Ainda assim, ele entende que seus temas: perdas, ganhos, dúvidas, alegrias e conflitos internos, são universais.

Sobre a cena local, Beal reconhece o alto nível artístico e a existência de diversos núcleos criativos, mas aponta desafios estruturais. A fragmentação geográfica da cidade, a pouca circulação entre diferentes regiões da ilha e a falta de registro histórico do hip hop catarinense são questões que, segundo ele, dificultam a consolidação da cena.

Outro ponto levantado é a ausência de artistas locais nos lineups de grandes eventos, especialmente na abertura de shows de atrações de fora. Para Beal, esse espaço é fundamental para fortalecer a identidade cultural da cidade e criar pontes com o público.

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Independência, desafios e continuidade

Seguir de forma independente no rap, hoje, significa lidar principalmente com limitações financeiras e com a dificuldade de “furar a bolha”. A ausência de patrocínios e grandes estruturas torna o caminho mais lento, mas não menos necessário.

O que mantém Beal motivado é a urgência de dizer o que ainda não foi dito. Ele afirma ter muitas músicas guardadas e vê o lançamento constante como uma forma de registrar etapas da vida, eternizar ideias e alcançar novas pessoas.

O projeto Músicas em MP3 seguirá como uma série contínua de compilações (Volume 1, Volume 2, etc.), reunindo faixas que ficaram de fora de outros lançamentos. Paralelamente, o artista já planeja singles inéditos a partir de 2026, com lançamentos mensais ou bimestrais para manter o ritmo e a presença ativa nas plataformas.
 

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O que fica depois do play

Beal espera que quem escute Músicas em MP3 termine a audição com um sentimento bom, de alegria e vontade de ouvir tudo novamente. Mais do que números, o objetivo é criar conexão: fazer com que o ouvinte conheça melhor sua história, sua caminhada e se sinta instigado a acompanhar os próximos passos.

“Eu gosto de cantar. Eu gosto de fazer música”, resume.
 

“Contra-capa” da mixtape Músicas em .mp3. Disponível no instagram do artista.

Carlos Eduardo Gomes

Atuação focada em rádio, televisão e comunicação cultural. É repórter, produtor e empreendedor de mídia independente.