Arquivo do Barraco: O dia em que Afrika Bambaataa ocupou a Rádio Campeche
Entrevista histórica marcou os seis meses do programa na Rádio Campeche e conectou Florianópolis à origem do Hip Hop
Em pé: Rico Mincarone, Afrika Bambaataa, Carlos Eduardo Gomes, Kalango, Zulu Mike e Lucas Daeni. Agachados: Daniel Noise e Mano Gus. Foto que marcou a segunda participação seguida do mestre Bambaataa no Barraco.
Entre os registros mais emblemáticos da história do Barraco RAP, poucos carregam tanto peso simbólico quanto as edições #28 e #29, gravadas entre o final de novembro e o início de dezembro de 2019. Para marcar seis meses no ar pela Rádio Comunitária Campeche, o programa recebeu ninguém menos que Afrika Bambaataa, fundador da Universal Zulu Nation e uma das figuras centrais na criação do Hip Hop no Bronx, em Nova York.
Não foi apenas uma entrevista. Foi um encontro histórico.
Do Bronx ao Sul da Ilha
O clima no estúdio era de respeito absoluto e de nervos à flor da pele. Acostumada a entrevistar artistas locais, andar pelas batalhas de rima locais e falar as gírias do lugar, a equipe do Barraco se viu diante do homem que ajudou a nomear, organizar e espalhar a cultura que eles vivem diariamente.
A presença de Afrika Bambaataa na Rádio Campeche representou algo maior: a validação da rádio comunitária como canal do povo, independente de empresários, guiada pela ideia, pela coletividade e pela mandinga.
Ao lado de Zulu Mike, Kalango, Zulu Prince e diversos amigos e curiosos, o estúdio se transformou em uma verdadeira embaixada da cultura Hip Hop, conectando Florianópolis diretamente ao Bronx.

Os quatro elementos e a raiz de tudo
Durante a conversa, Bambaataa relembrou como o Hip Hop nasceu da música e foi organizado pela Zulu Nation a partir de seus elementos fundamentais: DJ, MC, Breaking (B-Boy) e Graffiti. Mas fez questão de destacar aquilo que considera essencial: “Sem sabedoria, não ia ter o resto do negócio.”
Para ele, o Quinto Elemento, o Conhecimento, deveria ser o primeiro. É a base que sustenta todos os outros. Bambaataa explicou que a cultura cresceu tanto ao longo das décadas que hoje já se fala em mais de doze elementos, incluindo modos de vestir, comportamento e o freestyle.

Paz, união e um recado direto
Ao falar sobre a missão do Hip Hop, Bambaataa foi direto ao ponto ao reforçar os princípios de Paz, União, Amor e Diversão (Peace, Unity, Love and Having Fun).
Ele também enviou um recado claro a quem insiste em associar o Hip Hop apenas à violência: “Se alguém quer viver no gangsterismo, é melhor arrumar um advogado. O Hip Hop nasceu para curar, educar e organizar comunidades". Aos governantes brasileiros, a mensagem foi de respeito às favelas e ao povo periférico. Segundo ele, dentro dessas comunidades podem estar futuros cientistas, líderes agrícolas e transformadores sociais. “O reino está dentro de nós.”

Florianópolis no mapa da Zulu Nation
Afrika Bambaataa demonstrou carinho genuíno por Florianópolis e pelo Brasil. Disse se sentir praticamente um morador da ilha, graças às conexões construídas com artistas, produtores e militantes da cultura.
Ele celebrou a chamada “Experiência Hip Hop”, onde o gênero se mistura livremente com Samba, Rock, Reggae, Trap e Heavy Metal, criando uma sonoridade híbrida, subterrânea e autêntica.
O encerramento daquela noite histórica não poderia ser diferente: dança, união e rua. A equipe do Barraco e a Zulu Nation seguiram para a Batalha da Central, reafirmando que o Hip Hop é uma força viva que transforma seres humanos antes de qualquer mercado.
Arquivo do Barraco:
Programa #28 - https://www.mixcloud.com/Barracorap/hiphop/
Programa #29 - https://www.mixcloud.com/Barracorap/afrika/

Carlos Eduardo Gomes
Atuação focada em rádio, televisão e comunicação cultural. É repórter, produtor e empreendedor de mídia independente.













